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O Estágio da Simplicidade
Por João M. Matos

     O princípio da simplicidade - tão elevado no mundo espiritual, sinônimo de sabedoria e referência para as decisões judiciais - começa a ganhar força também no complexo mundo dos negócios. A idéia é utilizar o poder desse conceito para simplificar o funcionamento da empresa e realizar o trabalho de forma mais inteligente. Contudo, apesar do crescente interesse pelo tema, há ainda uma certa confusão sobre o verdadeiro significado do conceito da simplicidade aplicado à gestão empresarial. Em alguns casos extremos, chega-se a confundir simplicidade com simplismo. E veja que essas palavras têm significados muito diferentes: de acordo com o Dicionário Aurélio, simplicidade é a qualidade do que é simples, do que não apresenta dificuldade ou obstáculo. Significa também naturalidade, espontaneidade, elegância, caráter próprio, não modificado por elementos estranhos. Já simplismo significa vício de raciocínio que consiste em desprezar elementos necessários da solução.
     Destacar esses elementos do conceito da simplicidade no atual contexto dos negócios é muito importante, especialmente porque a administração das empresas hoje segue a trilha rumo a uma complexidade cada vez maior. E com o aumento dessa complexidade, torna-se cada vez mais complicado conectar os colaboradores com as estratégias de negócios. As evidências são de que as organizações têm sérias dificuldades para traduzir os seus objetivos estratégicos e inseri-los nas suas ações gerenciais. Buscar a simplicidade na condução das empresas significa deixar de lado modismos administrativos e se concentrar no que é essencial para o seu negócio. O trabalho das pessoas se torna muito mais simples quando se usa bom senso e cria menos confusão para elas. Manter as coisas simples é, ao mesmo tempo, a oportunidade e o desafio para que as empresas tenham sucesso no atual ambiente de negócios.
     No entanto, tornar o mundo dos negócios mais simples depende de um processo de liderança adequado e de líderes preparados para enxergar através da complexidade e buscar a clareza necessária para fazer as coisas de forma objetiva, saber o que é essencial e excluir o que é supérfluo e descartável. Porém, como ressaltou Bill Jensen em seu livro Simplicidade (Ed. Campus), a maioria dos líderes não está conseguindo que as pessoas foquem as coisas certas. Conseqüência: freqüentemente tempo e atenção são gastos em atividades não essenciais, sem valor. Para Jensen, a maioria das pessoas não tem as ferramentas para realizar suas tarefas. Ou, quando as tem, boa parte delas é subutilizada ou mal entendida.
     É preciso mais do nunca simplificar práticas, sem, no entanto, abrir mão da profundidade e compreensão das atividades essenciais da empresa, e avaliar as demais atividades para conhecer as tarefas que seus fornecedores e parceiros têm capacidade de executá-las de maneira mais eficiente e deixá-las a seu cargo. Certamente, o sucesso dessa missão exige o deslocamento de responsabilidade para encontrar soluções e resolver problemas nos vários níveis organizacionais. Cabe ao CEO e sua equipe de executivos dar a direção e envolver as pessoas de forma sincera e potencializar sua energia criativa. A liderança é um meio para compatibilizar compromisso assumido com os propósitos e objetivos da empresa. Porém, essa visão exige que se implante um processo de comunicação adequado, capaz de mobilizar e difundir o conhecimento coletivo, que deve fluir em todos os sentidos nos vários níveis da hierarquia organizacional.
     Uma reportagem recente da revista Exame (Faça simples, edição 788) deu uma grande contribuição para o debate do tema tratado aqui. A matéria mostra exemplos de 6 empresas que, entende assim, seguem o evangelho da simplicidade. Talvez o desvio da rota do conceito da simplicidade tenha sido o fato de se exagerar um pouco no simbolismo dos hábitos de alguns líderes, bem como a ênfase no modelo de preços baixos. É importante fazer essa ressalva porque o conceito da simplicidade não se aplica apenas aos modelos de baixo custo. E a empresa não vence no mercado pelo simples fato de ter um preço baixo. Existem empresas que não rezam por essa cartilha e, no entanto, se orientam e seguem o conceito da simplicidade. O que a empresa deve ter é a quantidade de níveis hierárquicos, a qualificação de seu pessoal e os benefícios oferecidos (diretos e indiretos) coerentes com a sua proposição de valor ao cliente. Entender que o valor é criado por meio dos atributos e benefícios que o produto e/ou serviço, e a empresa como um todo, propiciam ao cliente. De acordo com essa abordagem, a disposição do cliente em pagar não é determinada pelos custos do produto ou do serviço, mas por seu desempenho e valor resultante para ele. Neste sentido, a política de preços deve ser entendida como um meio para traduzir e comunicar esse valor ao cliente.
     A simplicidade deve ser entendida como uma meta a ser atingida (indicada aqui como o estágio da simplicidade). Porém, o caminho rumo ao estágio da simplicidade está cheio de atritos e obstáculos. Em seu livro O Poder da Simplicidade (Ed. Makron Books) Jack Trout e Steve Rivkin observaram que não se libera energia para criar produtos e métodos novos de atender as necessidades do cliente porque as pessoas estão muito ocupadas competindo entre si para agradar seus chefes. Para os autores, a área de negócios não é assim tão complexa. O que há por aí é apenas pessoas em excesso tornando-a complexa. Nesta linha, Max Gehringer, colaborador da revista Exame, fez um comentário muito interessante em uma de suas colunas sobre modismo da administração. Ele disse que o balanced scorecard está ganhando prestígio porque uma empresa é assim como um formigueiro, com a diferença de que o formigueiro é bem organizado. As formigas, ao contrário dos humanos, são naturalmente disciplinadas e capazes de manter o foco o tempo inteiro.
     Jim Collins batizou um dos capítulos de seu livro Empresas feitas para vencer (Ed. Campus) de Conceito do Porco-Espinho. Baseando-se numa antiga parábola grega que diz que a raposa sabe muitas coisas, mas o porco-espinho sabe uma coisa muito importante, Collins argumenta que aqueles que construíram as empresas feitas para vencer eram, em maior ou menor grau, porcos-espinhos. Para o autor, os porcos-espinhos compreendem que a essência de um insight profundo é a simplicidade. Enquanto as raposas atacam em várias frentes de uma única vez e nunca integram seu pensamento num conceito geral ou uma visão unificadora, os porcos-espinhos simplificam o mundo complexo e o transforma numa idéia organizadora, um princípio básico que orienta tudo.
     Há um entendimento de que a simplicidade é um alvo na escala da evolução. Ela está no DNA daqueles que pegaram um mundo complexo e o simplificaram. Seguindo essa linha, o sucesso dos líderes tem tudo a ver com a sua capacidade de resolver questões práticas do negócio. Para isso, eles devem ter duas características básicas: boa comunicação e capacidade para desenvolver relacionamentos. Simplicidade no mundo empresarial é sinônimo de processo de liderança capaz de traduzir os propósitos e objetivos e mobilizar os recursos da organização no sentido de criar uma maneira própria de competir e se diferenciar para ter uma vantagem competitiva sustentável.

    

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